terça-feira, maio 1

Portugal... boquiaberto.

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Hoje, dia 1 de Maio, voltou a fazer-se história de um modo que, antes dela o ser, poucos o poderiam ter previsto. É quase como a rábula inicial do super-homem: é um avião? é um pássaro? Não, é o super-homem! Hoje foi algo parecido no diário jornaleiro: são os discursos alusivos ao 1.º de Maio? São as sandices verborreadas por algum agente do governo? Não, é a malta a tarear-se forte e feio num qualquer pingo doce a propósito das promoções insensatas do presente dia.
Porque lhes chamo insensatas? Porque este, não sei bem como classificar..., frenesim poderia ter sido obtido noutro dia qualquer, exactamente do mesmo modo. Neste dia, escolhido com propósito muito vincado ficam imagens e pontos de vista muito significativos. 
1.º Para os proprietários do Pingo Doce, tudo vale, mesmo, em certo modo e do local onde me sento e penso, desprezar um dia em que o Trabalho, que tantas vezes lhes serve para encher a boca de ar e a barriga de riqueza, deveria ser homenageado - algo sem o qual o homem não pode viver, algo que lhe define o carácter, a fibra, que lhe dá um equilíbrio emocional, familiar e social. Para o grupo Pingo Doce fazer promoções em dia em que deveriam estar encerrados é indiferente. Qualquer dia encontrarei esta gente a vender salmão fumado, pastilhas para o hálito ou pensos higiénicos em serviços funerários, missas de domingo ou em pleno assalto à mão armada. Já me tinha sabido este Pingo a amargo aquando da saída de Portugal da sua sede, em virtude da diminuição da carga fiscal e agora este episódio. Lembrando Mário Lino: Pingo Doce, Jamais!; 
2.º É visível que as pessoas andam tão mal de finanças como de valores morais, algo que é explicado pela "peixeirada" e vias de facto, de facto, que houve entre os alguns clientes. Salve-se a curiosidade de que até carrinhos de compras vazios se começaram a alugar - "é gente desta que precisa o país" terá pensado o hamster que vive dentro da cabeça de Passos Coelho, gente que vê em tudo uma oportunidade de negócio mesmo que essa ocorra na desgraça alheia. Só espero que um dia, no funeral de um seu ente querido, não veja alguém da família Soares dos Santos perguntar: Quer'alheira, Senhor? Os relatos que li e ouvi sobre os portugueses clientes hoje da dita marca fizeram lembrar as imagens que a ajuda humanitária nos trás aquando da distribuição de alimentos às pessoas necessitadas, em África por exemplo. É mal e um, a somar a outros tantos, sinais. Eu sempre disse que este país tem tiques graves de terceiro mundo...

Deixo em mote ao dia que hoje tentou vingar, uma letrinha tão a propósito da boa gente das terras além Tejo.

Abre a boca de cansada
A mula da agonia
Chicoteia as costas magras
O Homem da estrebaria
Não dá asas ao descanso
Com o chicote levantado
Estimula a ponta do nó
Aos gritos como tarado


Dá-lhe um couce minha besta
Está na hora de mudar
Agarrando no chicote
E começa a avançar
Não te encolhas na cadeira
Á espera do que há-de vir
A cabeça desta mula
Pode algum dia servir


Qualquer dia senhor, qualquer dia.

3 comentários:

CASASTERRENOS 2010 disse...

PD jamais.

CASASTERRENOS 2010 disse...

PD jamais.

Fujiko disse...

... do outro lado ... o do avesso?
«Ontem fui ao Pingo Doce das redondezas. Pronto, está dito. Venha o vitupério. Podem indignar se que eu compreendo. Não se faz. Era meio-dia. As garrafas de whisky tinham desaparecido, as filas asssustavam. Trouxe cereais, uma excursão de comida de gato, fraldas e vinho. Necessidades. Quando reparei que a criança ao colo me daria outras vantagens, não quis abusar. E deixei-me estar. Felizmente, não precisei de dar um estalo em ninguém, nem sequer naquela senhora que perguntava aos gritos se a frigideira também estava incluída nos descontos. Ouvi uma jovem mãe questionar, numa roda familiar, se deveria aproveitar o embalo para comprar peixe, «coisa» que lá por casa nunca se comia, dizia. Vi gente a correr como se a salvação do fim do mundo estivesse naquela lata de atum ou numa embalagem de esparguete. E, se calhar, até está, que sei eu? Sim, podem chicotear-me: o meu 1º de Maio deste ano não teve «manif», mas teve supermercado. Não tenho desculpa. Nem o facto de ter ido à Baixa no 25 de Abril me vacina contra o imperdoável. E logo o Pingo Doce, que eu ando a boicotar aos bochechos desde que soube do encantamento fiscal do senhor Soares dos Santos pela Holanda. (Boicotar às pinguinhas, Miguel? Rídiculo. Mas alguém poderá levar a sério um revolucionário incontinente como eu?). Parece que tenho mesmo de ser castigado, mas ainda não me disseram como. Vou esperar. Por esta altura, ainda se está a ver se a estratégia comercial do senhor Soares dos Santos foi legal, embora o investigador Manuel Villaverde Cabral diga que a campanha de promoções foi «genial». Não me comovo. Hei-de lembrar-me, nos meus piores pesadelos, daquele dia em que a CGTP precisou de mim, na rua, e eu a fazer feriado, armado em Deolinda: «Vão sem mim que eu vou lá ter». Pela parte que me toca, quero que saibam que cheguei a casa arrependido e borrei a cara de vergonha. Detesto ser apanhado com Dodots no lugar dos princípios.», in a Devida Comédia.