sexta-feira, agosto 31

Miscelânea


Chega Setembro e com ele iniciam-se ou continuam as coisas que se deixaram estacionadas em Agosto. Mas Setembro também marca algumas épocas anuais, por exemplo as deslocações dos professores e dos alunos universitários, a compra dos manuais escolares e o retorno aos debates típicos. Debruço-me sobre eles.
Depois da sinuosa discussão em torno da localização do novo aeroporto de Lisboa eis que agora vem a QUERCUS dizer que é necessário fazer um estudo ambiental. Ocorre-me ouvindo-os que se isto é como se diz um país do 1.º mundo, esse estudo fará parte dos documentos necessários para justificar a escolha da localização e como tal não vou nessa direcção mas sim na influência da QUERCUS no país já que, casualmente, esta semana o autarca de Reguengos de Monsaraz se queixou disso mesmo. O autarca, devido a uma melhor utilização das valências do Alqueva, publicamente afirmou que se devia pensar mais nas pessoas e não tanto nas árvores.
O despovoamento do Alentejo é uma realidade aos anos. O Alqueva foi uma grande obra e parece que apenas os espanhóis estão dispostos a usufrui-la já que os terrenos adjacentes são, em parte, deles. Se por vezes não se olhar para lá das árvores, o país vai ficar com zonas desertas, que com o tempo, serão pasto dos incêndios e dos incendiários, sendo que esses não terão preocupações ambientais. Recordo-me também do caso da Barragem de Foz Côa que não foi feita (e mal no meu entender) devido às gravuras e agora nem visitantes, nem água, nem nada e ao visitar Foz Côa ficamos com a ideia que o tempo ali corre demasiado devagarinho... Façam-se as coisas também com cultura e preocupação ambiental mas nos dias que correm a coexistência, desde que bem estudada e cuidada, é perfeitamente possível e nada se perde. Os fundamentalismos, até os verdes, não são bons.

Noutro tópico... Os manuais escolares.
Cabe aos professores a escolha dos mesmos e eles são imensos. As mesmas editoras por vezes apresentam mais que um projecto e também é visível que, deixando de lado mudanças curriculares, os mesmos variam pouco de umas edições para outras. A escolha é algo complicada não pela tarefa em si mas pela quantidade e como não há, parece-me, uma selecção prévia a mesma torna-se demorada e penosa e como tudo, com o prazo muito curto. Também é interessante que todos mas todos os projectos vêm carimbados com o mesmo valor! Ou seja a concorrência não se verifica, parece haver um acerto no valor dos mesmos sendo que o Ministério aconselha (creio) um preço que invariavelmente todas seguem. A concorrência em Portugal faz-se assim, de combinações e isso é mau. Uma nota: em Espanha muitas comunidades oferecem os livros aos estudantes até um determinado nível escolar.
Os outros deixo para depois :)

5 comentários:

Pedro Miguel disse...

Importante o ponto que levantaste na primeira parte do post.

Parece-me existir por parte dos nossos governantes e não só, um esquecimento do bem estar e progresso da sociedade em detrimento factores como é o caso do ambiente ou cultura.

Importante ter a percepção de que não estou a dizer que cultura e ambiente não são prioritários, porque o são.

No entanto vejamos o caso da Barragem de Foz Côa, muita discussão, barragem Vs gravuras. Posta a questão nesta forma simplista barragens podem contruir-se em vários locais e preservar as gravuras no seu local original só mesmo ali.

No entanto até ao presente não foi apresentada nenhuma outra alternativa à construção do projecto da baragem. Uma baragem numa zona como Foz Côa iria incrementar a Qualidade de vida naquela região, trazendo beneficios para a agricultura e quem sabe atrair alguma indústria. Mas foi decidido que manter as gravuras no seu habitat natural era uma solução muito mais progressista.

A meu ver uma decisão errada. Isto porque nunca o potencial cultural daquelas gravuras se pode comparar à riqueza que um recurso natural como a água pode trazer.

Vamos preservar aquilo que temos, nunca nos esquecendo que quem preserva somos nós.

Um outro ponto passa pelo o facto de alguns senhores dos estudos de impacto ambiental usarem como principal fonte de pesquisa o Google Earth nos seus gabinetes com ar condicionado. Sujar as botas, falar com as populações e pensar em projectos que potenciem o que existe o que vai ser construido poderia levar-nos um pouco mais além.

Infelizmente estamos cada vez mais longe disto...

Pedro

Great Houdini disse...

Caros senhores, so mesmo para ser do contra, respeito a vossa opiniao e tem a sua logica, mas com todo o respeito dou.me a liberdade de discordar dela, atrevido o gajo =)

Pedro Miguel disse tudo "importante ter a percepção de que não estou a dizer que cultura e ambiente não são prioritários, porque o são." sem duvida, esta é uma verdade, devia ser regra, mandamento biblico quicás.

Pessoalmente tudo o que é feito para perservar o ambiente e fomentar a cultura é sempre bem vindo doa a quem doer.

No caso Foz Coa acho que voces estao a cair numa analise simplista da questao. Preservar as gravuras foi uma boa medida, ponto final, é algo único e como as coisas únicas deve ser mantido.

Nao se ter feito a barragem nao é culpa das gravuras, ou da preservacao do ambiente, esse é o ponto. Essa letargia deve.se simplesmente á estupidez natural do ser humano, burocracias, interesses politicos, paralesia dos orgaos locais.

O mundo nao é nosso para dispormos como bem entendermos, nos é que pertencemos ao mundo. As arvores ja ca estavam e tem de ser respeitadas, so respeitando é que só pode almejar a um verdadeiro desenvolvimento da sociedade.

Adiantando ja um ou outro argumento vosso, nao se confunda crescimento com desenvolvimento, e nao me venham com tretas, o ser humano se consegue ir á Lua, consegue descobrir formas viaveis de criar condicoes para o desenvolvimento integrado. Mas se calhar é mais faceis criar novas maneiras de matar, de criar esquemas que promovam o interesse individual.

Caros amigos espero que esta provocacao vos de que pensar e nao caiam no erro de a tentar rebater, leiam e pensem antes de responder, pois sei que conseguem melhorar a vossa logica nao errada mas curta e demasiado pragmatica.

Se se apostasse mais na cultura e no civismo do que no crescimento economico, se calhar nao havia tantos incendiarios, tantos gatuno e tanta gente limitada no nosso pais. e, certamente que o crescimento economico surgiria.

Fortes abracos.

O Adamastor disse...

Hmmmmm discordo Houdini :)

Temos que nos cingir à realidade nacional porque as grandes obras não vão parar a Foz Côa, ficam na capital e quando se distraiem no Porto.
Optou-se naquele dia pelas gravuras por medo de sofrer de síndrome de desenvolvimento. Era, e hoje verifica-se a cada dia que passa, importante a barragem. Socialmente no que concerne a potenciar emprego numa região estagnada e porque existem recursos que não devem ser desperdicados e que estarão em falta.

É evidente que a barragem teria impacto a outros níveis mas as gravuras continuam a estar ao ar sujeitas à erosão e daqui a 500 anos a barragem será feita porque das gravuras apenas restarão imagens. Mais me preocuparia o impacto nas espécies dos rio mas aí já existe capacidade (querendo) de preservar uma não abdicando da outra.

Mas desculpa que discorde, a barragem não foi feita, pelo menos publicamente, devido às gravuras. Pensava-se que o seu impacto seria maior e a população atirou-se a essa vertigem mediática. E basta responder ao seguinte: De nós os três quem já lá foi?
As pessoas de Foz Côa pensavam que iam ali ter o ganha pão a par das vinhas e isso é uma verdade confirmável.

Desenolvimento potencia crescimento e vice-versa, tudo depende do menor ou maior profissionalismo que se dedica à questão. Evidente que estamos em Portugal e é evidente que a mesma não iria dar a Foz Côa o mesmo que dá o Alqueva ao alentejo mas o seu impacto é incontornável. As gravuras? Não derão nada, só atraso.

E aqui não creio que surfe numa onda de pragmatismo mas sim numa onda real de quem por lá passou e viu nada quando poderia ter visto mais. Era interessante fazer um estudo de opinião para saber se estariam a favor ou contra a barragem. Ou muito me engano ou iria ver-se uma mudança de pensamento.

É aqui que a regionalização poderia dar uma ajuda apesar de pensar que este país não se coaduna, em termos dimensionais, com essa ideia. Mas se cada reião tivesse que se desenvolver por si talvez as coisas versariam diferente.

Abraço aos dois

Great Houdini disse...

Agradeço os meus abraços.

Primeiro, eu já tive a feliz oportunidade de ver as gravuras, confesso que não foi a melhor visita da minha vida, mas realmente é pena que não se dinamize o espaço.

Na questão da barragem o que me leva a discordar é, a visão branco ou preto. Ou é ali, daquela forma e aquele projecto ou não há mais possibilidades de desenvolvimento para a região.

Repito, as gravuras nao dão atraso, são as pessoas que não as souberam aproveitar e não souberam criar um plano de contigência para a região. Aí sim concordo contigo, um sistema assente numa indole regional seria bem mais proveitoso. As pressoes dos partidos assumem maior relevância do que o real interesse das pessoas.

Atenção que o crescismento não envolve necessáriamente desenvolvimento.

Agora acredita o país que temos é o país que a generalidade dos habitantes merece. Daí a necessidade de educar e preservar. Por isso preservar as gravuras será sempre uma boa opção. Certamente que existarão outros projectos, senão o mesmo remodelado.

Cuidado com o argumento da consulta popular para questões regionais. Olha as touradas, nenhuma maternidade fechava, ... há coisas que devem ser preservadas sobre tudo, a constituição, os direitos do Homem, o ambiente, a cultura.

Por esse ponto de vista estás a aprovar moralmente o uso de petróleo.

Renovo os abraços.

Pedro Miguel disse...

Parece-me claro que estamos todos em sintonia, quanto à noção de desenvolvimento e crescimento da sociedade. Eu nunca irei por em questão a importância cultural de ditas figuras, pois elas são um marco histório extremamente importante.

Porém não sendo técnico de conservação, vou ao encontro do que Adamastor disse quanto à degradação das figuras. Parece-me que a transferência das figuras para um local a estudar, que poderia por passar um museu na vila de Foz Côa ou a colocação das gravuras a uma cota acima do nível da águas poderiam ser duas alternativas bastante viáveis.

O que deixa "triste" no meio disto tudo é o facto de Portugal não ter um plano estratégico de desenvolvimento. Este plano passaria por "equipar" o território nacional de infra-estruturas que permitissem o DESENVOLVIMENTO das regiões.

Acredito que se um plano deste tipo teria por exemplo viabilizado a construção da dita barragem e que poderia ter transformado as figuras rupestres em elementos importantes do nosso património cultural.

Existindo um plano de trabalhos com pessoas responsáveis e credíveis, estas teriam que dar resposta a situações como esta que temos vindo a abordar. Mas não... nada disto acontece. Somos conduzidos por uma cooperativa de interesses que nem eles se sabem orientar.

Para onde olho vejo um país desorientado na maioria das principais orientações estratégicas.

Se não temos quem nos oriente... temos que nós nos orientar!!!

Abraço

Pedro